domingo, 15 de Novembro de 2009

Enchidos Ibéricos

O presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, bateu finalmente o pé e decidiu, esta semana, que os passageiros frequentes da classe económica irão passar a viajar no porão dos aviões, juntamente com os animais enjaulados, os enchidos ibéricos, e a bagagem em geral. É uma medida que visa reduzir os custos no orçamento da AR recolocando as gentes nos seus devidos lugares – metendo o camelo no buraco da agulha, por assim dizer – e mostrando aos senhores deputados como é dura a vida do cidadão comum dando-lhes a experimentar um pouco do desconforto das massas. Assim, os deputados vão deixar de voar em primeira classe e serão vergonhosamente despromovidos à classe executiva – onde, como é do domínio público, os passageiros convivem com baratas, ratos, hospedeiras com infecções, e mau champanhe escocês. Tudo isto à custa do Estado.
Mas estão a ver a lógica da coisa, ou não? Se os deputados – todos os 230, que viajam com grande frequência e sob qualquer pretexto (em 2007 a AR gastou 351 mil euros em viagens, o que equivale a 5850 voos entre Lisboa e Madrid em classe económica, o que equivale a 16 voos diários entre Lisboa e Madrid) – forem recambiados para a classe executiva, deixando a primeira classe para as pessoas realmente importantes, o pessoal da classe executiva terá, necessariamente, de ser recambiado para a classe económica e, helas, o pessoal da classe económica não terá outra alternativa senão habitar o porão das aeronaves onde, segundo informações que me chegaram da boca de um fox terrier, não se viaja assim tão mal. No fundo, para nós, os económicos, é uma promoção. Sem a incómoda necessidade dos assentos ou dos cintos de segurança, teremos liberdade para trocar ideias e cabeçadas e, ao mesmo tempo, tratar pessoalmente da segurança dos nossos animais (eu viajo sempre com galinhas) e de zelar pelo estado da nossa bagagem. Quem sabe os amigos ou paixões que poderão surgir naquela escuridão com cheiro a cabra montanhesa e aos fumos tóxicos das turbinas? Teremos ainda o regozijo de saber que, lá em cima, na classe executiva, os deputados da AR estão a passar por agruras que eram inimagináveis antes das novas regras impostas por Jaime Gama. A pergunta deixará de ser “para onde tanto viajam os nossos deputados” e passará a ser “por que razão se sujeitam os nossos deputados a tal martírio”?
As últimas informações, contudo, dizem que não estaremos sozinhos. O Jerónimo de Sousa e a Ana Drago já se voluntariaram para viajar no porão. Ao primeiro tenho algum medo de o encontrar no escuro (sobretudo na secção dos enchidos ibéricos). Quanto à Ana Drago, teremos muito para conversar. Fazemos anos no mesmo dia e parece que é benfiquista.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Pais e Filhos

O filho de Paul Auster, Daniel, tem um website, que descobri aqui. Terá mais ou menos a minha idade (talvez dois ou três anos mais novo) e, se o interesse do pai são as letras, o dele é a música. It sort of rings a bell. Backwards.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

A 17 e 18 de Novembro, a Universidade de Coimbra vai ser palco do colóquio "Livro e Leitura entre os Jovens" - um tema que vale a pena abordar e discutir. Porque, enfim, era conveniente que continuasse a haver leitores daqui por dez ou vinte anos. Vai ter a presença, entre outros, de Mário de Carvalho, Fernando Pinto do Amaral e José Carlos Vasconcelos, director do JL. Mais informações em www.uc.pt/imprensa_uce

domingo, 1 de Novembro de 2009


Regressado de Barcelona, um Domingo, três coisas imediatas que fazem contrastar o fulgor apocalíptico das Ramblas ao estupor soporífero da Baixa: a ausência de rostos, os lugares fechados, as fezes petrificadas dos cães. A cidade está deserta às dez da noite e, do interior do táxi, apesar do calor de um Verão de São Martinho, é como se caísse uma chuva torrencial do lado de fora da janela que afastasse os transeuntes para o aconchego anódino dos seus lares. Começo agora a convencer-me que não é um problema de geografia ou sequer um esquecimento por parte dos que a governam: é, simplesmente, uma amnésia generalizada que tomou conta dos portugueses, possivelmente logo após o regresso das caravelas do Brasil – onde deixaram a vontade de desbravar, esventrar e marcar o mundo com os machados e enxadas oferecidos por D. Manuel – e se prolongou pachorrentamente até ao reinado do Presidente do Conselho, onde nos tiraram os machados e nos deixaram só com as enxadas. Dito isto, a comparação é esta: embora Barcelona sofra da Grande Praga do turismo (com os bárbaros germanos, celtas e gauleses, em chanatas e camisas havaianas, a habitarem ruidosamente as tabernas), continua a ser um lugar que nos cospe na cara as vezes que forem necessárias até que lhe prestemos atenção; Lisboa, por contraste, dá-nos suaves lambidelas nos dedos dos pés e enxotamo-la como se fôssemos um vigário que, ocupado na leitura da liturgia, lhe viesse um cachorro incomodar o momento de oração. O cosmopolitismo de uma cidade contrasta de tal maneira com a sonolência da outra cidade que poderíamos julgar estar em Continentes distintos e em diferentes épocas históricas: de um lado, a vontade indomável da permanente descoberta, mesmo por aqueles que descobrem a mesma coisa todos os dias; do outro, a ternura tímida dos que deram a coisa por terminada e se fecharam nas alas silenciosas de um palácio, conversando com estátuas. Por que é que as coisas são assim? Difícil de explicar. Por que é que eles - os nossos “vizinhos”, os nossos “irmãos” -, estupidamente orgulhosos e por vezes excessivos, celebram diariamente o lugar onde vivem, enquanto nós o damos por adquirido e o enchemos de silêncio, de modorra, de dejectos dos animais? Por falar nisso: aí vem o cachorro enxotado pelo vigário, que apareceu à rua e largou as fezes no passeio. Saio do táxi, pego na mala, olho, ao calor inusitado daquela noite enganada, na direcção da avenida que conduz ao rio, tão tranquila, tão plácida; suspiro, dou meia-volta, e, de cabeça no ar, piso a merda do cão. Entro em casa, frustrado, e vou-me deitar, finalmente sem ouvir uma única voz.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

As Três Vidas

...edição Prémio Saramago 2009, nas livrarias.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Contos de Vampiros 29 de Outubro

Dia 29 de Outubro, na Cantina do Lx Factory, apresentação de "Contos de Vampiros" da Porto Editora, com a participação de Gonçalo M. Tavares, José Eduardo Agualusa, João Tordo, Miguel Esteves Cardoso, Rui Zink, Hélia Correia, Ana Paula Tavares e Susana Caldeira Cabaço. Dizem que vai haver sangue, por isso apareçam.

Javier

"Porque a literatura é memória. A literatura o que faz é resgatar os mortos. Há um poema de Thomas Hardy sobre a segunda morte, a morte definitiva, que é quando já não existe ninguém que se lembre de nós. Pois a literatura é uma batalha para que essa segunda morte não aconteça. É como Orfeu buscando Eurídice no inferno. É arrancar os mortos à morte. E é também como se os mortos se agarrassem a nós com todas as forças, para não morrer de vez. A literatura não pode ser outra coisa a não ser isto. Uma batalha contra o esquecimento, contra a morte. Porque as palavras não morrem. Porque a linguagem não morre."
Javier Cercas

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Crónica FJV

Ontem, Correio da Manhã, por Francisco José Viegas:

Blog # 463

João Tordo ganhou o Prémio José Saramago e é um dos nomes fundamentais da nova geração de escritores da Língua Portuguesa. Os seus romances publicados até agora (‘O Livro dos Homens sem Luz’, ‘Hotel Memória’, e ‘As Três Vidas’ – este, premiado) mostram um narrador hábil, cheio de talento, de leituras e de bom gosto. O talento não é “natural” – aperfeiçoou-se com muito trabalho e, quanto ao bom gosto, é cada vez mais difícil de encontrar em literatura. As suas histórias não decorrem em Portugal (à exceção de parte do último), mas num mundo que se despedaça e se reconstrói por toda a parte onde os seus personagens vivem e morrem. Estejam, por favor, atentos a este autor tão discreto como insistente e sólido. João Tordo não escreve por escrever. Tem uma marca de grandeza.

domingo, 18 de Outubro de 2009

Prémio Saramago 2009

João Tordo ganha Prémio Literário José Saramago

O escritor João Tordo venceu a sexta edição do Prémio Literário José Saramago com o romance "As Três Vidas", editado pela Quid Novi, anunciou hoje, sábado, em Penafiel, fonte da Fundação Círculo de Leitores.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Stieg (1954-2004)

Goste-se ou não do género policial, Stieg Larsson foi um grande mestre do género. Escrevo “foi” porque Larsson morreu em 2004, aos cinquenta anos – a mesma idade com que Roberto Bolaño partiu deste mundo – e, a juntar à fenomenal obra do chileno radicado na Europa, a trilogia Millennium tem sido a maior surpresa do ano editorial que, como é sabido, termina a cada Verão e agora encontra a sua retoma. O escritor sueco é a prova cabal de que a construção de um romance pode ser o projecto de uma vida; ou, no caso das aventuras de Lisbeth Salander e de Mikael Blomqvist, o projecto de várias vidas, aquelas outras que Larsson nunca chegará a ter. Embora se tenha ficado pela trilogia, Larsson planeava uma série de dez livros, o que, tendo em conta que cada um dos romances tem para cima de 600 páginas, constituiria uma obra de mais de seis mil páginas dedicada a duas das personagens ficcionais mais carismáticas dos últimos tempos. Mais do que isso, a trilogia é a demonstração de que um bestseller não tem, necessariamente, de ser um livro para adultos explicado às crianças, em linguagem de twitter, cheio de puzzles imbecis, pontos para unir, e recortes pelo picotado, nem o seu autor uma espécie de James Bond de pacotilha que ande por aí a levantar as tampas das panelas de pressão milenares, prometendo mundos e fundos, verdades reveladas, escrituras descodificadas, e simbologia para deficientes mentais. Larsson foi o segundo autor mais vendido em 2008 logo atrás do afegão Khaled Hosseini; e foi, também, o autor que mais vendeu uma primeira obra depois de morto, uma vez que o sueco faleceu antes de qualquer um dos livros ser publicado e, obviamente, não teve oportunidade para fazer qualquer promoção. O politicamente correcto no mundo literário impõe - como se a literatura fosse, hoje, uma espécie de ginásio – autores bem-parecidos, saudáveis e “very promotable”. Larsson teria sido uma desilusão: fumava como uma chaminé, bebia, e levantava-se tarde e a más horas. Se estivesse vivo, era de esperar que mandasse a promoção para o raio que a parta – ele sabia que, para alcançar um público vasto, ainda é suficiente ter muita qualidade. Stieg vai, decerto, tornar-se num clássico da literatura policial e, daqui por cem anos (quando a Internet e o Blackberry forem tão obsoletos como as palmilhas dos sapatos ou o saca-rolhas manual), será lido com a mesma intensidade e veneração com que os romances detectivescos de Conan Doyle o são hoje em dia. E, já agora, aproveitem o filme (“Os Homens Que Odeiam as Mulheres”), que está aí e recomenda-se.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Casablanca

Três coisas a dizer do lançamento de "O Mar em Casablanca", de Francisco José Viegas: 1) bela apresentação de António-Pedro Vasconcelos 2) bela recepção por parte da Porto Editora, com comida e bebida ao gosto de Jaime Ramos 3) o Francisco comoveu-se e com razão: tantos amigos juntos reconciliam-nos com o mundo. Cheguei a casa às 2 da manhã e comecei a ler. Parei perto da página 60, já o relógio batia as 4:30, com Jaime Ramos, apesar de Rosa, a concluir que é um homem sozinho: "Ele morreria sozinho. Ele seria Jaime Ramos, aquele que vai morrer sozinho, aquele que se despede sem que ninguém saiba. Seria Jaime Ramos, aquele anónimo que vivia numa rua sem história."

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Workshop de Romance!

Workshop de Escrita de Romance: da Primeira à Última Página (Produções Fictícias)

De que falamos quando falamos de “romance”? Será que o primeiro parágrafo tem assim tanta importância? Como desenvolver uma boa história? Etc, etc... A estas e a muitas outras questões relacionadas com a escrita de um romance vão responder Hugo Gonçalves e João Tordo neste workshop.
Hugo Gonçalves é o autor dos romances "O Coração dos Homens" (2006) e "O Maior Espectáculo do Mundo" (2004), tendo escrito e apresentado recentemente, na SIC Radical, uma série de nove documentários intitulada "Portugal Meu Amor". De João Tordo foram publicados, entre 2004 e 2008, os romances "O Livro dos Homens Sem Luz", "As Três Vidas" e "Hotel Memória". Tem, também, trabalhos desenvolvidos nas áreas da escrita de argumento, jornalismo e tradução.
Sessões às segundas e quartas, das 19h30 às 22h00.
Candidaturas abertas a partir do dia 12 de Outubro. Mais informações através do e-mail formacao@producoesficticias.pt ou pelo número 213 864 554.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Caça às Bruxas

E, de repente, voltámos à Idade Média para uma caça às bruxas. O homem a abater é, aparentemente, Roberto Bolaño - e já depois de morto. Esta é (mais) uma opinião de uma dissidente-sem-sequer-ter-lido, alguém que acha que, para ser literatura, tem de ser apreciada por muito poucos e, de preferência, numa cave escura ao som do Requiem de Mozart. Se meter margaritas, shots, e gentinha dessa à mistura, está tudo estragado. É o Portugal dos pequeninos all over again. Por amor de deus: o mundo não se reduz ao nosso miserabilismo acanhado, e uma festa de lançamento nunca estragou a literatura em parte nenhuma do mundo. Eu adoro Vergílio Ferreira, mas há vida pós-Vergílio Ferreira, como a haverá pós-Bolaño. Só que, por enquanto, ele é a melhor coisa que anda por aí.

sábado, 26 de Setembro de 2009

Today

"December 23

Nothing happened today. And if anything did, i'd rather not talk about it, because I didn't understand it."

Roberto Bolaño, The Savage Detectives, p. 105